segunda-feira, 23 de maio de 2011

Devushka


Um dia eu estava no Skype com uma amiga de Moscou, conversávamos sobre casamento e outras coisas. Ela não concordou com meu empenho cego nos estudos e trabalho, e tentou me convencer a abrir espaço para outras coisas na minha vida.

Ela conseguiu.

Atualmente isso poderia ser interpretado como machismo. Mas não foi assim que suas palavras me atingiram. Eu li o que surgia no display do Skype e me apertou o coração ao ver a simplicidade com que ela encarava o casamento.

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(…) You need someone who will support you in your career. You are a man, it's your duty to work, to get money for family, to be smart and wise. And woman just must support and give you comfort and love.

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Fevereiro de 2011

Epígrafe


Veio-me à cabeça depois de ler o livro 3096 dias, Natascha Kampusch.


Mas, de certa maneira, eu já estava engasgado com isso desde que Liana Friedenbach foi assassinada com 16 facadas no dia do meu aniversário de 16 anos.

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Epígrafe

Eu não acredito em nenhuma força ou lei que manipule o presente para privilegiar o futuro. Ou que preze pela justiça acima de tudo, a não ser que por suas próprias regras. Hoje eu não faço questão de que o céu exista, mas me sentiria aliviado se soubesse que o inferno, mas tal como narram os ignorantes, seria o destino certo daqueles que, alguma vez, violentaram uma mulher.

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Maio de 2011

Lágrimas do céu

Esse texto foi originalmente escrito em 2009, mas reformulado em 2011.

A essência e os principais detalhes da história foram mantidos.

O mais impressionante é que ele aconteceu. Exatamente como é narrado.

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Lágrimas do céu
  
Era um café muito agradável. Paredes em tom amarronzado com cortinas em palha, como o pelo de um Labrador. Mesas de madeira maciça, rígidas e robustas, e pessoas falando em russo. À luz de lâmpadas incandescentes, tudo parecia um tanto dourado.

O cardápio estava em cirílico, e o máximo que eu pude fazer foi entender e pronunciar o som das palavras sem saber o que cada uma significava. Eu fazia isso enquanto olhava para ela, tentando provocar algum sorriso naquele rosto, para mim, tão arisco. Reservei-me ao mínimo de empolgação.

Pedi a ela uma opinião para bebida. Eu não tinha o que fazer diante do cardápio intraduzível. Ela sugeriu um tradicional chocolate quente. A idéia parecia boa e eu aceitei. 

Enquanto nossas bebidas não chegavam, conversamos sobre coisas simples. Isso sempre me anima: Simplicidade. Quando digo isso, me refiro a conversas sobre detalhes das cores dos pássaros, e as diferenças entre as aves brasileiras e russas. Ou coisas interessantes que um corvo já tenha feito. Como ela vê um cachorro e como ela se lembra de um cachorro. Se ela sonha em ser mãe... Uma noite inteira não seria suficiente para esgotar aquele assunto auto-deflagrável.

As bebidas chegaram, mas só serviram para aumentar, ligeiramente, o intervalo entre uma pergunta e uma resposta. O líquido rebatia o frio, mas nenhum de nós queria queimar a boca. Eu não queria que aquilo acabasse. Naquela noite eu deixei o café angustiado.

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Quando saímos, uma amena chuva, muito freqüente em Moscou naquele período do ano, nos aguou. Ela, acondicionada ao clima imprevisível da cidade, carregava um guarda-chuva.

_Eu tenho um guarda-chuva. Acho que é suficiente para nós dois.

_Não, não. Não me preocupo com um pouco de chuva.

Ela era uma donzela. Jamais contestaria uma gentileza. Se, além disso, eu a oferecesse meu casaco, ela aceitaria e continuaria a caminhar indiferente.

_Você vê? O Céu está chorando. – Naquele momento não conseguiria prever como estas palavras me afetariam em longo prazo.

_Isso é chuva. – Respondi, em meio a um sorriso intrigado e pouco antes de colocar as mãos no bolso.

Houve uma pausa de três ou quatro segundos e, então, ela se virou e me olhou diretamente:

_Essa é uma eterna briga entre poetas e cientistas.

Foi interessante e inusitado ouvir aquilo naquelas circunstâncias. Eu a conhecia há pouco, mas percebi que seus olhos estavam carregados de alguma coisa que só faria sentido tempos depois.

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Na estação de metro, quando fomos nos despedir, eu a abracei e algumas gotas de chuva, que ainda permaneciam em seus curtos cabelos, tocaram o lado direito do meu rosto. Eu prolonguei aquele abraço até o limite da normalidade, e vi que ela também queria o mesmo. 

Então eu a soltei. E ficamos por curtos segundos nos olhando. Até que levei a mão ao meu rosto para sentir a umidade. Em seguida, olhei para meus dedos molhados e, em meio a um sorriso irônico, eu disse:

_Essas devem ser as lágrimas do céu.

E nós rimos juntos.

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Bem, o céu não chora. Não há ninguém lá em cima tão triste e, ao mesmo tempo, tão indiferente, a ponto inundar uma cidade em lágrimas. Na verdade, o que seus olhos queriam dizer, com todo o peso com que me olharam, é que eu deveria considerar profundamente o que ela havia falado. E, ocasionalmente, eu ainda me ocupo em extrair mais daquela frase.

Hoje penso que se, por um lado, naquele fim de tarde, o céu se lamentava sem motivos, eu tinha um motivo eminente para chorar caminhando ao meu lado. 

E, em silêncio absoluto, sorrimos um para o outro enquanto eu dava lentos passos para trás. É estranho me lembrar de que naquela hora eu não me preocupei com o fato de que nunca mais a veria. Talvez por que ela ainda estivesse tão perto.

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A inspiração deste texto nunca o leu... Certamente nunca lerá.


Maio de 2011

Você me faz querer ser uma pessoa melhor

Esse texto foi um divisor de águas na minha filosofia de escrita. Passei a me ater à simplicidade a todo custo.

Ele verbaliza uma parte do período introspectivo em que tentei entender tudo o que pudesse ser clichê. Tento levar isso comigo até hoje.

O título, extremamente clichê, contrasta com o corpo do texto, que o disseca e o contradiz.

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 Você me faz querer ser uma pessoa melhor

          Não me lembro dos nomes, mas sei que já ouvi esses dizeres em dúzias de romances diferentes. Eu acreditava ser só mais um clichê para o qual alguns diretores gostavam de apelar, visto que era muito freqüente.

          Nunca me esqueci do aparente poder que essa citação tinha. Ela fazia brilhar os olhos de quem a ouvia. Mas eu pensava que esse efeito fosse exclusivo do cinema. Com exceção dos homens das cavernas, nós temos uma natural dificuldade de aceitar que um filme represente a realidade. Quando o roteirista não é dos melhores, a coisa fica pior. O filme passa uma imagem de estar ainda mais longe. E nós, involuntariamente, os damos a mesma credibilidade que costumamos conferir a opinião de uma criança. Entendemos que queriam apenas rechear o texto. Um amontoado de letras que não nos desperta curiosidade.

         Quando me tornei mais velho, percebi exatamente como eram os clichês do cinema. Assisti a muitos filmes e condicionei-me ficar irritado quando percebia um exemplo da falta de criatividade. E, então, entendi que a frase que dá título a este texto tinha uma aparência misteriosamente sem forma. Não era um clichê. Imaginei que deveria ter sido escrita por algum poeta que já sabia como não era um clichê, mas ainda não sabia como era uma grande frase.

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As pessoas vivem conhecendo outras. Num ponto de ônibus, no aeroporto. Algumas são descartáveis. Outras se tornam importantes e agregam-se ao sentido que cada um dá a sua vida. Você poderia ter vivido e morrido sem nunca tê-las conhecido, mas as conheceu e suas existências passaram a contribuir-se.

            Um dia eu conheceria alguém. Poderia ter sido só mais uma pessoa descartável, mas não foi.

Esse tipo de acontecido deixa a gente intrigado. Digo, a precisão com que as coisas aconteceram me deixou intrigado. Parece ter sido premeditado por alguém. Impressionante demais para ser aleatório. Se fosse um filme, os críticos reclamariam da previsibilidade do roteiro. Mas não era um filme, era minha vida e mais parecia um Deja vu.

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Eu estava indo mal na universidade. Desolado e desmotivado. Culpei o cansaço, pois nada havia mudado em minha vida e eu estava cada vez pior. Acreditei no que era mais conveniente. Não me dei ao trabalho de buscar explicação. Já havia passado o tempo em que eu gastava folhas de papel para tentar explicar o que alguém realmente queria dizer com suas palavras.

Mas depois que ela me surgiu, passei a sentir que havia uma razão para fazer coisas das quais eu fosse me orgulhar algum dia. Fiz as pazes com meus inimigos. Aprendi a tolerar as pessoas pelas quais costumava sentir antipatia. Decidi racionalizar algumas emoções para evitar sentir o que não era certo. E adicionei emoção a alguns raciocínios. Passei a ter compaixão por todos, mesmo pelos que eram mais ricos e poderosos que eu. Eles, ainda assim, poderiam ser infelizes e eu não quis ser indiferente a isso. Esforcei-me para tentar entender a opinião dos outros e os motivos que os levaram a fazer coisas erradas. Senti prazer em ajudar quem precisou de mim e passei a usar suas expressões de agradecimento como combustível.

Se eu tivesse que explicar o que de mais importante ela fez em minha vida, seria assim que eu faria: 

“Ela dá sentido a frases que antes não tinham. Devolveu razão aos meus dias...

... Ela me faz querer ser uma pessoa melhor”

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A inspiração deste texto nunca o leu... Certamente nunca lerá.


Maio de 2010

Explica-me a beleza, amigo

Um texto que, mesmo para mim, ainda é um tanto confuso, exceto pelo último parágrafo, onde prezei pela simplicidade. Mas quando eu o escrevi, todo ele me fazia muito sentido.

Não tem nome. Que eu me lembre, até agora, é meu único texto sem título.

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"Milhões de anos de evolução para transformar o instinto numa faculdade da razão. Para diferenciar os motivos por que vivem os cachorros e os homens. Para resumir a dor ou frio tudo o que, de fora, pode nos atingir. Para justificar a razão pela qual os homens mudam de opinião e sua capacidade de tornar qualquer coisa em verdade. 

O mesmo privilégio que obriga o caçador a andar contra o vento. O pretexto que sustenta o orgulho com que os homens encaram os ratos. Mas que também é a razão por que medo e receio são sempre as primeiras sensações quando alguma coisa acontece pela primeira vez. E o motivo pelo qual o homem é o único animal que sofre por amor.

Uma caminhada cujo fim sempre estará depois do horizonte. Longe demais para saber se, no destino, haverá mesmo terra para pisar. Uma procissão dos que são ocupados demais para lembrarem-se dos motivos pelos quais caminham. Um reflexo da ignorância de cada homem que sempre é confundido com um extraordinário senso de perseverança comum. A mesma caminhada que deu asas ao peixe e que parece querer dar barbatanas ao homem."

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Milhões de anos de evolução para transformar o instinto numa faculdade da razão. Então, amigo, repare naquela moça de cabelos castanhos sentada ali adiante. Não desonre as almas que um dia aqueceram os corpos empilhados sob seus pés. Mostre-me que é mais do que um bravo matador de ratos.


Ela ignora os sensos e anda suntuosamente como se eles nunca tivessem existido. Faz-te sentir movido por motivos muito mais nobres do que os que costuma experimentar. Como, se bem entendesse, pudesse decretar que a partir de hoje as maçãs cairão para cima. Não dá sentido à sua vida, mas entorpece-te a ponto de cessar seus questionamentos.


Diga-me...


... Que não perdeu o controle da freqüência com que bate seu coração. 
... que suportaria indefinidamente todas as dúvidas que acabaram de surgir-te. 
... que o que sente não é indescritível como o gosto de uma colher de mel 
... e que não é honesto como o motivo pelo qual os cães abanam seus rabos. 


Mas é só uma moça de cabelos castanhos e olhos brilhantes. Não é?


Então... Explica-me a beleza dela e pagar-te-ei uma bebida, amigo.

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 Março/Abril de 2010