domingo, 4 de dezembro de 2011

Alegria violenta

Cruzei a garagem com uma mala pesada na mão esquerda. Meu pai vinha logo atrás com mais algumas sacolas. Propositalmente, deixei o braço direito livre para cumprimentar os que estivessem pelo caminho. Estalei os dedos para um cachorro branco e pequeno que eu nunca havia visto. Ele tinha uma única e charmosa mancha preta que, generosamente, contornava o olho esquerdo. O bichinho atendeu simpaticamente ao meu convite e bateu com as patas dianteiras no meu joelho enquanto abanava o rabo.

 Continuei a caminhar até chegar próximo a porta de madeira. Esperei encontrar na sala quem sempre costumava. Minha tia estava por lá, com um sorriso default. Eu a cumprimentei com um semi-abraço com meu braço direito, especialmente livre para essa finalidade. Seguindo, uma troca de perguntas padrões, respostas padrões, e eu me convidei a entrar.

Era uma sala de visitas: Uma mesa de centro de madeira com apoio de vidro e dois sofás brancos dispostos num vértice comum, a minha esquerda. Esse cômodo intermediava o acesso à sala de jantar, e sua bem trabalhada mesa de madeira, e a sala de almoço, com uma mesa pequena, comum, dessas que não despertam tanta curiosidade. As paredes de toda a casa eram brancas com grandes janelas de madeira rubra. O acabamento e mobilha eram de muito bom gosto e bem distantes da realidade do meu minúsculo apartamento. 

Tudo fluía num conformado cinza, até que, sem aviso, deixou de ser.

Ao cruzar o perímetro do recinto, eu a vi.

Meu coração se golpeou no que, para mim, foi um único pulso intenso que o encheu de sangue como um soco no peito. Olhamo-nos tão veementemente que penso que se algum desavisado cruzasse a linha que conectava nossos olhos, ele seria, desavisadamente, fatiado.

Foi uma troca tão curta quanto intensa.

E, então, eu pude ver, a poucos passos de distância, os olhos brilhantes e a beleza que amigo nenhum explicaria, mesmo sob a pena de uma dose de Blue Label. Os cabelos castanhos que se deleitavam sobre si mesmos e sobre os ombros. O contorno do corpo era morno e chamava por minhas mãos.

Senti vontade de perdoar todos os meus inimigos.

“A passos firmes, cruzei a sala na direção da pequena moça. Os pés, solidamente, golpeavam o chão, decididos a alcançar o que estivesse no final da reta. E respirava. Durante o curto percurso, as mãos se ergueram num movimento suave e preciso na direção do rosto de Ana.

E eu a beijei, profundamente, como se pudesse ouvir o som da água cavitar de sua pele. As pontas das unhas atritavam sobre a pele ‘branca como neve que cai’.

... E tudo fluía num excitante vermelho, quando, sem aviso, deixou de ser.

Ao olhá-la nos olhos o conto desandou a ruir. Sua imagem se tornara translucida. Pude ver os contornos do carpete por através de seu corpo. Pelo tato de minhas mãos, senti como se ela estivesse, gradativamente, se misturando ao ar.

E o coração de Ana ardia numa hipnotizante chama vermelha que o envolvia com uma manta de algodão. Um brilho forte que o destacava da lívida projeção de seu corpo... Levantei minha mão direita e, timidamente, o toquei...

 A vontade da chama, num estalo, inflamou a ponta de meu médio e passou a consumi-lo indiferentemente, como se não estivesse sendo observada. Ao chiado perturbador de pólvora a queimar, uma fumaça incandescente se espalhava, convidando a arder outras partes de mim.

Em choque, me afastei de Ana, ao ver meus dedos, um a um, e, seguidamente, minha mão, tonarem em fumaça como um enorme pavio. Tão rápido quanto uma única inspiração, a frente de chama já avançava por meu pulso e antebraço, num estágio que se portou como um marco dessa tragédia, onde, ainda mais rapidamente, parte por parte, todo meu corpo se sujeitava a queimar.

A chama percorria minha pele como soldados nas areias da Normandia, deixando um inferno para trás. Tomei uma expressão impotente, indignada, que brilhava num intenso e oscilante tom de prata, enquanto a fumaça branca tomava conta do recinto, do teto ao chão e por todos os lados.

A nuvem migrava para outras partes da casa pelos vãos das portas. A capa que cobria o sofá se enrugava sob o intenso calor. Todo o chão ficara salpicado por milhares de pontos pretos onde as fagulhas de pólvora, ainda a arder, se depositavam. A atmosfera era asfixiante e fazia ferver a garganta. Meus pés deixavam pegadas pretas enquanto eu agonizava. Meu corpo se despedaçava e desmoronava sobre a própria estrutura, como uma árvore incendiada por mil sóis.

Em poucos segundos, um coração solitário, envolto por fogo vermelho cintilante, perdido em meio à sufocante fumaça branca, foi tudo o que restou daquele encontro.

E eu desapareci no ar, sem deixar cinzas, como jaz minha esperança.”

“Essas alegrias violentas têm fins violentos. E falecem no
triunfo, como fogo e pólvora, que num beijo se consomem.”
W. S.
 
§

A inspiração deste texto nunca o leu... Certamente nunca lerá.

Outubro e novembro de 2011